Executiva aposta em TV com desenvolvimento de conteúdo, streaming e legado

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Executiva aposta em TV com desenvolvimento de conteúdo, streaming e legado

Em meados da década de 1980, uma jovem estudante de Jornalismo abriu uma lista telefônica com uma missão: conseguir um emprego em uma das rádios da cidade de Campinas, em São Paulo, para financiar a carreira universitária. De uma cabine pública de telefone, ela começou a ligar para as emissoras, uma a uma, mas do outro lado o que ecoava eram respostas negativas. 

Após cada “não”, Maria Angela de Jesus se imbuía de uma determinação inexplicável ao dizer a si própria que “nada era impossível ou inalcançável”. Apostou em mais uma a ficha e ligou. Do outro lado, soou a voz do redator-chefe da Rádio Central de Campinas. Ele gostou do que ouviu e a convidou para uma entrevista de trabalho. 

Futuro e modernização

A partir daí, Maria Angela de Jesus não parou mais. Foi de radioescuta à repórter de rua, passou para o jornalismo impresso, em alguns dos maiores veículos do Brasil, como as revistas Veja e Vogue, além do jornal Folha de São Paulo.  Era só o começo de uma história de superação que a levaria, em 2025, a um dos postos mais altos do jornalismo brasileiro: a Presidência da Fundação Padre Anchieta responsável pela TV Cultura e rádios do grupo.

Hoje, Maria Angela, que começou a carreira no mundo analógico, aposta numa modernização da TV pública na era digital utilizando cada oportunidade que as novas tecnologias oferecem.

“É uma modernização da TV aberta. É olhar a TV aberta como plataforma digital. E dentro disso, você incorpora as diversas mídias, que nós temos aqui, como a rádio, os nossos sites, o nosso fast channel, os nossos canais de TV paga, ou seja, você incorpora dentro de um escopo de uma plataforma digital. Então é uma modernização que vai sim alavancar a TV aberta e levar a TV aberta para um outro escopo, para um outro tamanho.”

Periferia, literatura e Tintin

Maria Angela de Jesus aprendeu desde cedo, que nada cai do céu, e que tudo precisa ser conquistado com afinco. E sua trajetória é prova disso. Ao começar no rádio, ela foi realizando o sonho de menina de aprender idiomas, viajar pelo mundo, e um dia quem sabe, aterrissar em Paris, a cidade pela qual já transitava virtualmente, através dos clássicos da literatura que seus pais guardavam nas estantes da sua casa numa periferia de Campinas. 

Ali, começava a se formar a identidade da intrépida repórter que ainda se perdia nas Aventuras de Tintin acreditando que o impossível, o inalcançável eram apenas palavras de um manual de escolhas próprias. Uma lição que até hoje ressoa com outros jovens com histórias parecidas e que pedem conselhos à executiva.

Formação da cidadania

“Não diga não a oportunidades. Se há um conselho profissional que eu dou é esse: não diga não a uma oportunidade. Lá na frente você vai ver e falar ‘como foi importante eu ter feito isso’. E eu acho que a minha carreira se constrói nesse caminho.”

E o caminho de Maria Angela de Jesus do jornalismo de rádio e impresso foi a base para a TV a cabo em canais internacionais como o HBO, onde passou 20 anos, até chegar ao posto de produtora da Netflix. Depois disso, foi para a Paramount. Agora, à frente da Fundação Padre Anchieta, ela promove o desenvolvimento de conteúdo para cultura e cidadania. Tudo isso acompanhado de muita curadoria. 

©Nadja Kouchi/Acervo TV Cultura
Maria Angela de Jesus no evento de lançamento do Repórter Eco.

Ecossistema e mídias 

“É o cuidado com o que colocamos no ar, é o cuidado com a boa informação. A gente faz um trabalho grande aqui, interno, inclusive de conscientização. Campanhas de conscientização contra violência à mulher, programas e campanhas sobre fake news que a gente sabe que é um tema extremamente, principalmente nesse momento, muito relevante. Nós estamos agora, nesse momento, iniciando, aqui, o nosso período eleitoral. Isso sim faz parte da comunicação pública, trazer a boa discussão, jogar luz a temas que muitas vezes não têm espaço na TV, numa TV aberta, comercial. Eu acho que a TV pública ela ocupa esse espaço. A TV Cultura tem uma tradição nisso, tem um legado, uma história que comprova tudo isso.”

Para a executiva de TV, Maria Angela de Jesus, o mundo vive num ecossistema de mídias tradicionais e novas mídias que se complementam. A proposta dela é um grande diálogo intergeracional e de sinergia com jornalistas, criadores, e desenvolvedores de conteúdo. Outro foco é o combate às notícias falsas, ao deepfake e à desinformação.

Deepfake e justiça no Roda Viva

Um dos produtos da casa, o Roda Viva, considerado o programa político mais antigo da TV brasileira, foi alvo de montagens inverídicas e maliciosas, que tiveram de ser combatidas com rigor, como conta Maria Angela.

“Tivemos sim que fazer comunicados explicando que era uso indevido de imagens Era uso indevido da nossa marca, da marca Roda Viva. A gente entende que é por conta da credibilidade, mas é um uso indevido. E sendo usado para dar golpes financeiros, inclusive. Aí fizemos uma campanha no ar. Fizemos nos nossos sites, nas nossas páginas, perfis de internet, dando essa visibilidade e esclarecendo esse ponto, porque não podíamos nos calar diante daquilo de forma alguma, e sim tomando medidas judiciais também para esse caso, especificamente.”

Segundo a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, dois terços dos criadores de conteúdo na internet, hoje, não apuram a informação nem fazem checagem dos fatos antes de postar.

Há dois anos, a agência da ONU lançou um Plano de Ação para Combater a Desinformação e a Informação Falsa através da Literacia de Mídia e Informação, MIL, na sigla em inglês.

Para a líder da TV Cultura, a desinformação é parte de uma realidade de ataques ao jornalismo que tem levado o setor a uma crise de financiamento e de existência. Mas segundo Maria Angela de Jesus, este também é um momento de oportunidades para as emissoras públicas de mostrarem o seu melhor. 

©Nadja Kouchi/Acervo TV Cultura
Maria Angela de Jesus na Exposição Primeiras Infâncias Brasileiras.

O caminho: mulheres no comando

Ao ser perguntada sobre o conselho que daria para mulheres que querem chegar à liderança e ao topo da carreira de executiva em jornalismo, ela respondeu.

“Quando nós pensamos nos grandes profissionais, nos grandes líderes desses canais todos de TV aberta etc é uma presença pequena.  Eu venho de uma área de streaming. É curioso, acho que com empresas, com players americanos, onde você tem mais essa flexibilidade, você tem grandes profissionais liderando estúdios, liderando as plataformas de estúdios, na própria Netflix, na HBO também tinha, Paramount também, você tinha essa presença. E aqui a gente ainda encontra pouco. É difícil dar um conselho específico.  Mas na minha trajetória, o que eu sempre busquei, foi abraçar oportunidades. Eu nunca falei não para uma oportunidade, desde jovem. Então sempre que me apareciam coisas, eu ia atrás. Eu nunca deixei de acreditar no meu sonho. Sim, eu posso, eu vou, e eu consigo chegar lá.”

Estimativas da Federação Internacional de Jornalistas indicam que cerca de 7% dos CEOs do setor são mulheres. 

ONU Mulheres e a meta da paridade

Em todo o mundo, nas 500 maiores empresas que aparecem na relação da revista Fortune, as CEOs perfazem somente 10%. 

A ONU Mulheres revela que em janeiro deste ano, apenas 18 países tinham uma mulher como chefes de Estado e 21 nações eram lideradas por uma chefe de governo.

Um longo caminho a percorrer até a paridade e o aumento de mulheres em espaços de decisão. 

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 5 visa um planeta 50:50 que não deixe ninguém para trás.

Para a agência da ONU, a tarefa de cada um é empurrar as barreiras e seguir construindo um futuro de igualdade e paridade também no mercado de trabalho. E neste caso, a trajetória de Maria Angela de Jesus é uma dessas histórias que inspiram à mudança.

*Monica Grayley é editora-chefe da ONU News em Português.

LEIA AQUI A ENTREVISTA COMPLETA!

Fonte ONU

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