Inteligência artificial abala mercado da tradução de livro – 17/04/2026 – Ilustrada

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Inteligência artificial abala mercado da tradução de livro - 17/04/2026 - Ilustrada

Para Adriana Lisboa, traduzir é como dançar. Ora se aproxima, ora se afasta do texto original, sem perder o ritmo das palavras.

Ao trabalhar com “As Noites Frias da Infância”, a tradutora teve que aprender novos passos: escrito originalmente em turco, língua que ela não domina, o livro da escritora Tezer Özlü foi traduzido com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial.

O gesto de Lisboa está no centro de um dilema que opõe tradutores e inteligência artificial no campo da literatura, uma relação equilibrada entre a viabilidade da IA como ferramenta de apoio e sua ameaça à qualidade e ao mercado de trabalho desses profissionais.

Quando a Autêntica Contemporânea decidiu publicar Özlü, conta a editora Rafaela Lamas, não tinha relação de confiança com nenhum tradutor de turco. Ao convidar Lisboa para o trabalho, a proposta era partir da tradução em inglês, feita por Maureen Freely e consagrada pelo prêmio do National Book Critics Circle.

Desconfiada da prática de tradução indireta, a tradutora buscou a versão em espanhol do texto, para comparação, o que revelou divergências de tom e significado. Então, recorreu à IA.

“Quando eu encontrava discrepâncias com o original em turco, pedia que a IA me explicasse o original e as opções dos dois tradutores. Além disso, tive a fundamental colaboração do diplomata Marcus Vinícius Marinho, fluente em turco e leitor de Özlü, que leu não somente o original como também as traduções ao inglês, ao espanhol e ao alemão.”

Frequentemente comparado com “A Redoma de Vidro”, de Sylvia Plath, por seu retrato brutal do feminino, “As Noites Frias da Infância” é o primeiro romance da autora turca, originalmente lançado em 1980 e com previsão para sair em junho no Brasil.

Experiente, Lisboa já traduziu clássicos como “O Morro dos Ventos Uivantes” e “Jane Eyre”, das irmãs Emily e Charlotte Brontë, e obras de vanguarda como “Hiroshima Meu Amor”, de Marguerite Duras, e “Vidro, Ironia e Deus”, de Anne Carson.

A experiência com a máquina ensinou à tradutora que não é preciso optar pelos extremos. Entre aqueles que entregam tudo à IA e os que não querem ouvir falar na tecnologia, sua escolha é usá-la “como mera ferramenta, que não substitui o pensamento e as decisões criativas, mas pode ajudar a chegar a uma visão panorâmica de um tema, para aprofundar as pesquisas e a compreensão necessárias ao trabalho”.

“É um campo a ser explorado”, diz ela. “Uma nova forma de dançar.”

A inteligência artificial, no entanto, inquieta tradutores pela ameaça existencial que representa para a categoria no mundo todo. Na Europa, empresas de tecnologia como Fluent Planet e Nuanxed estão sendo empregadas por editoras como HarperCollins France e Veen Bosch & Keuning para realizar traduções automáticas de romances.

Uma pesquisa realizada pela Society of Authors, no Reino Unido, apontou em janeiro do ano passado que mais de um terço dos tradutores havia perdido trabalho para a IA generativa.

No Brasil, o mercado ainda é conservador, mas traduções com IA sem autoria humana já figuram em obras de editoras comerciais como a Manole.

Lenita Maria Rimoli Pisetta, professora de estudos da tradução na Universidade de São Paulo, considera contraproducente a postura de negação da tecnologia. Mas, como Lisboa, vê na IA “uma ferramenta, não fórmula mágica”.

Se antes a tradução literária era descartada em pesquisas sobre tradutores automáticos, como o Google Translate, hoje, com o avanço dos modelos de linguagem de larga escala (LLM), ela está em foco. É esse o objeto de estudo de Natália Carolina Resende, professora do Trinity College, na Irlanda.

Segundo ela, a ferramenta é eficaz no processo de tradução porque serve à “automação do corpus de pesquisa”, isto é, substitui a busca em dicionários ou glossários.

Apesar de otimista, Resende compartilha resultados que problematizam o uso da ferramenta. Sua pesquisa mostra que textos traduzidos por IA têm características distintas das traduções humanas, como o uso de vocabulário limitado, frases longas e muitos adjetivos, marcas que fazem com que leitores prefiram o texto humano.

Outro aspecto negativo está no efeito que a IA tem sobre o tradutor. Ao receber a solução da máquina, ele acaba não conseguindo pensar em alternativas. “É o que a psicologia chama de ‘priming’: o comportamento linguístico é influenciado por um estímulo anterior”, um processo que mina o potencial crítico do profissional.

Alison Entrekin, australiana que trabalhou por mais de dez anos em uma versão em inglês de “Grande Sertão: Veredas” a sair em breve, critica esse tipo de uso. “Quem terceiriza a primeira etapa da tradução deixa de exercitar essa parte do cérebro. A tendência é perdermos a habilidade de percepção. Se passo menos tempo com o texto, tenho menos compreensão.”

O consenso entre tradutores é que a máquina não tem como substituir o humano. Nos termos de Lisboa, “ela não pode simular a experiência vivida da linguagem e da leitura literária, nem a inserção do tradutor no tempo e na cultura como um sujeito histórico”.

“A tradução é um trabalho baseado na artesania” define a poeta e tradutora Prisca Agustoni, que traduz de italiano, francês, alemão, inglês e espanhol para português. Hoje, também se aventura na tradução do russo, idioma que não domina, em um processo parecido com o de Lisboa —a russa Maria Vragova faz uma tradução literal do texto, retrabalhada por Agustoni para afinar a sonoridade em língua portuguesa.

Esse empenho a quatro mãos “permite trabalhar na fronteira movediça que é a tentativa de reproduzir a atmosfera do texto, mobilizando questões contextualizadas no tempo de quem as vive”. “A IA não tem essas variantes”, aponta Agustoni.

Por mais que não use a tecnologia, a poeta a descreve com otimismo comedido. “Não sou das que acham que o mundo vai acabar por causa dela. Todo instrumento é útil para alguma coisa. Depende do uso que se faz.”

Resende reforça a visão das tradutoras: a IA sempre precisará da supervisão humana. Mas a opinião não é compartilhada por todos na indústria. “O problema é a ambição de empresas que, em vez de vê-la como ferramenta para estender a capacidade humana, incentivam a ideologia da substituição.”

O risco do emprego da IA como forma de cortar custos na cadeia do livro, pressionando por maior produtividade e precarizando o mercado, convive com a possibilidade de usá-la para expandir os horizontes da literatura, como fez Lisboa. Cautelosa, ela defende que seu exemplo não é generalizável. “Foi um processo trabalhoso, eticamente orientado e com supervisão de um colega fluente em turco.”

A tradutora também atenta para o possível “achatamento” dos textos por causa da tradução mediada. Entrekin usa sua experiência com Guimarães Rosa para defender que, quanto mais idiossincrático o texto, menos adequada é a ajuda da IA. “Ela busca o meio do caminho, que não é o da literatura. Queremos aquilo que a deixa brilhar e saltar da página.”

Crente de que a IA já domina o mundo criativo, Pisetta, a professora da USP, diz que a única maneira de controlar a máquina é conhecê-la, por isso incentiva o uso da tecnologia nas aulas. Face aos riscos, o que Lisboa propõe é “ir contra a corrente e falar cada vez mais sobre tradução, dar mais voz e destaque aos tradutores”.



Fonte ==> Uol

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