
Aos 76 anos, a prática diária de liderança, criação artística, literatura e autonomia desafia o Etarismo e exige um novo olhar sobre a capacidade produtiva das pessoas longevas no Brasil.
O debate contemporâneo sobre a transição demográfica no Brasil costuma ser enquadrado sob duas óticas quase exclusivas: o impacto nas contas da previdência pública ou a necessidade de políticas assistenciais de proteção social. Embora a garantia de direitos e o combate às vulnerabilidades sejam fundamentais, essa abordagem limitada perpetua um viés etarista que invisibiliza a maior riqueza da longevidade: o capital intelectual, a capacidade produtiva e a liderança ativa de milhões de pessoas longevas que continuam a mover o país.
Superando o etarismo estrutural
O Etarismo, o preconceito baseado na idade, manifesta-se de forma silenciosa ao associar automaticamente o avançar dos anos à perda de discernimento, à inatividade econômica e ao isolamento social. Trata-se de um equívoco estatístico e cultural. Com o aumento da expectativa de vida e o avanço da medicina preventiva, a vivência dos 60, 70 ou 80 anos redefiniu-se radicalmente.
A maturidade traz consigo atributos que nenhuma tecnologia ou juventude consegue replicar: capacidade de resolução de conflitos complexos, inteligência emocional acumulada, visão sistêmica de longo prazo e um senso ético lapidado por décadas de experiência prática.
A prova empírica: a longevidade em ação literária e artística
A teoria ganha força incontestável quando respaldada pela realidade. Estar a apenas quatro anos de completar a oitava década de vida, mantendo uma rotina de trabalho contínuo de 8 a 10 horas diárias, liderando diretoria de relações internacionais, ministrando palestras e transitando de forma autônoma pelo mundo, não é um fenômeno extraordinário, é a demonstração prática do que a longevidade saudável e engajada realiza.
Trata-se de uma fase de efervescência criativa e intelectual: pianista, artista plástica e titular de oito Academias de Letras (das quais três são internacionais, em Paris, Itália e Espanha), o vigor produtivo se traduz na escrita de 34 obras publicadas entre 2023 e julho de 2026. A 35ª obra, com lançamento confirmado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo e na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, comprova que a alta performance intelectual e o alcance global não têm data de validade.
Do assistencialismo à cidadania produtiva
Para que o Brasil aproveite o chamado “segundo bônus demográfico”, é urgente substituir a narrativa da “mera proteção” pela agenda da cidadania produtiva. Isso exige transformações concretas no mercado de trabalho e na formulação de políticas públicas:
- Inclusão na Economia do Conhecimento: Criar mecanismos que incentivem a permanência e a recontratação de profissionais sêniores em cargos de consultoria, mentoria e conselhos de administração.
- Fomento ao Empreendedorismo Sênior e Cultural: Estimular linhas de crédito e programas de inovação voltados para lideranças longevas que geram impacto social, literário e corporativo.
- Participação Política e Institucional: Garantir assentos deliberativos para longevos em fóruns de tomada de decisão, utilizando seu repertório para orientar o desenvolvimento sustentável.
O futuro pertence a todas as idades
Garantir proteção contra a violência e a vulnerabilidade é o piso básico de uma sociedade civilizada; mas o teto precisa ser a oportunidade de contribuição plena. Envelhecer com saúde, lucidez, vigor produtivo e efervescência artística é um ato de resistência e uma contribuição inestimável para a nação.
A maturidade não é o encerramento da jornada produtiva, mas a sua fase mais refinada e potente. O Brasil do futuro precisa, urgentemente, aprender a ouvir, integrar e liderar com a sabedoria de quem tem história para contar, arte para criar e energia para realizar.

